quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Boca del Hueque

Viajar é uma palavra com muitos sinónimos, pelo menos para mim que sou uma pessoa de sinónimos. O principal, claro, e sempre e na minha humilde opinião viajar é TUDO sobre as pessoas, as que vemos, as que se cruzam de uma ou outra maneira, as que se criam laços de amizade, as que se fornicam (fornicar é feio mas parece bem), as que se deixam conhecer e as que não se deixam conhecer, as que me mostram algo, aquelas a quais eu mostro algo, as bonitas e as feias, as vagabundas e as politicamente correctas e as politicamente incorrectas e todas as pessoas são realmente aquilo que me interessa mais numa viagem. Depois das pessoas vem a outra coisa que está directamente ligado às pessoas e que não é mais do que as coisas que me fazem perceber as pessoas. Aqui pode vir um lugar, uma frase, uma conversa, uma palavra apenas, um aspecto físico, uma paisagem, uma sociedade, um meio ambiente, um pensamento, uma mirada, um orgasmo, vários orgasmos, nenhum orgasmo, uma mensagem, um piropo, um livro (estes cabrões que me dão a maior quantidade de sinónimos das pessoas, das viagens), uma revista ou um jornal, uma mensagem electrónica, e por ai adiante no dicionário das palavras.

Este último fim-de-semana teve tudo a ver com pessoas e nada a ver com pessoas, contrariedades que juro por minha honra serem verdadeiras. Uma mais fugida de Caracas para em rumo a oeste eu, um primo meu de seu nome Ricardo, a sua novia, e mais quatro amigos irmos acampar para a Boca del Hueque. Uma praia perdida nesta costa de quase cinco mil quilómetros, deserta e quase virgem não fossem os turistas os filhos da mãe a tirar a virgindade a tudo – eu inclusive. Seis horas e pico de caminho pelo meio da noite e inicio da manhã, muito alcatrão esburacado e trânsito infernal (não estivéssemos nós a viajar pelas estradas da Venezuela), mais hora e meia em caminho digno de um bom quatro vezes quatro para finalmente os olhos se deleitarem com as vistas que tal lugar proporcionava. Um palmeiral de quilómetro e tal (sem precisões) a ficar paralelo a uma praia com o mesmo comprimento e um mar castanho que não de sujo mas sim de suspensão arenosa tal a pequena dimensão do grão de areia de tal areal. O Sol escaldava na pele lá no alto, as nuvens não existiam e um brilhante céu azul fazia as vezes de deuses.

Montamos acampamento por debaixo do palmeiral que nos dava a sombra obrigatória tal o estorricar do Sol. Os cocos por vezes faziam-se notar pelo barulho oco ao cair na areia e o estacionar perto de um tronco estava proibido – seria um desperdiçar de vidas morrer com um coco na cabeça, irónico até tal a quantidade de balas usadas na capital de tal país, não que a morte não tenha muita ironia mas esta teria demasiada.

A partir daqui nada tenho para contar! Fizemos aquilo que um grupo de jovens faz quando vai acampar: Brincadeiras, corridas, futebol, correria, banhos, tendas, comida (faltam sempre os talheres), bebidas, cigarros, conversas filosóficas, conversas quase filosóficas, conversas nada filosóficas e mais uma besteirada de acções que sabe sempre tão bem. À parte disso e particularmente para mim foram quatro dias e três noites de um retiro quase budista (não fosse o caso nada ter a haver com o budismo) no meio do nada e do tudo que é aquele paraíso. O convívio estava exclusivamente limitado às sete pessoas que por ali estavam e eu para vos ser sincero não estava muito para convívios, nada que um pouco de rum e um Tinto Argentino não ajudasse. Nos intervalos do rum e do Tinto viajei muito! Neste caso viajei pelo entendimento sempre tentado e nada conseguido das pessoas. Preguei uma cadeira a dois metros da quebra das ondas, enchi um copo com o cocktail Cuba Libre (dá-me vontade de rir da pessoa que inventou este cocktail para não falar no seu muito particular e nada verdadeiro nome), sentei-me, prendi um cigarro e abri um livro, e depois outro que foram duas as companhias dos quatro dias. Absorvi tudo que me diziam naquelas palavras para acabar desiludido com os dois manuscritos. O Kiss me once, kiss me twice era demasiado romance típico de contos de fadas para mim, o que me fez apenas ver e pensar no lado oposto – fenomenal! O outro era sobre as nossas incansáveis buscas do entendimento da humanidade actual e as suas diferenças, de nome Guns, Steel and Germs, acabou por me dar muita informação que embora interessante e muito relevante não era o tipo de leitura para a minha mente actual. No entanto deu que pensar e dá que pensar e dá-me a certeza que no fundo são tudo buscas inapropriadas e desnecessárias – nada que não seja susceptível de se mudar em pensamentos.

Pelo meio comemorei os meus vinte e três anos de existência, se os vinte e um foram de “oficialmente adulto” e os vinte e dois de capicua, os vinte e três não faço a mínima ideia do que seja. A idade é já obrigatória de responsabilidades na maior parte das vezes. No meu caso a responsabilidade é praticamente nula, mas para vos ser sincero ainda estou para perceber o significado da palavra responsabilidade na sua verdadeira essência. O significado na nossa sociedade para um jovem como eu seria possivelmente de um emprego, uma namorada a pensar no casamento e uma perspectiva de carreira. Na sua “verdadeira essência”, a palavra responsabilidade dá-me outros pensamentos que não estes, pensamentos ainda nada explícitos e por isso nada descritos – ainda. Olho para mim e vejo que realmente a idade avança, vinte e três anos são alguma coisa! Eu nunca no meu perfeito juízo entraria agora por filosofias sobre a idade já que: o dia de aniversário tem que ser comemorado como tal e sem filosofias; a minha idade não significa absolutamente nada em termos quantitativos para algum tipo de filosofia e porque a minha filosofia é das pessoas e não da minha pessoa – ainda.

Acabando com pouco interesse assim como comecei este horrível texto sem sentido, digo apenas que fui acampar o último fim-de-semana para mais uma das muitas paradisíacas praias deste paradisíaco país! Conversei e desfrutei, li, caminhei, tomei banhos de mar, de sol e de rio, vi a natureza no seu maior esplendor, sorri e ri, pensei e deixei de pensar e no final do dia, corri nu pela praia fora para todo nu tomar um bom banho de mar. Foi um aniversário diferente sem duvida alguma, mas não deixei de o desfrutar de uma particular e bonita maneira. No final de contas um fim-de-semana para me provar novamente que a vida continua a ser um milagre (claro que eu sou suspeito já que para mim a vida sempre foi um milagre)!


















Puerto Maya - Capitulo 2

Acho que não me canso de falar de Puerto Maya, ou antes, acho que não me caso de pensar em Puerto Maya, de estar em Puerto Maya. Depois de não ter regressado quando planeado e na altura das sagradas festas desta pequena aldeia, eis que finalmente o meu tio Gil dá o abalo e uma semana depois das mesmas lá voltei eu a tal aldeia na companhia deste mesmo tio, um amigo do mesmo e um outro amigo do amigo do mesmo. Todos portugueses: dois emigrantes e dois não emigrantes, dois do norte português e dois da ilha da Madeira, tudo misturado dá demasiada confusão para explicar. Não interessa de facto explicar – todos portugueses!

Cada vez que lá volto, sou constantemente bombardeado com perguntas para que eu explique o mundo àquelas gentes. Cada vez que lá volto penso se é o mundo que se deve explicar a Puerto Maya ou se será Puerto Maya que se deve explicar ao mundo. Todo o mundo em geral perde de facto importância tal a sua demência quando o comparo a esta sobriedade e simplicidade que é esta vila, mesmo sendo os seus habitantes quase alcoólicos. Puerto Maya para mim é cada vez mais a explicação do sentido da vida – em teorias filosóficas claro. Penso e repenso no que será de facto o objectivo de uma vida para um Europeu como sou de gema e coração, penso no objectivo de vida de qualquer pessoa daquele lugar, penso no errado e no certo e duvido de quem estará mais certo ou mais errado, ou apenas menos errado.

A vila é pequena, tem cerca de quinhentos habitantes (começam a ser demasiados) e umas duzentas casas. A população vive única e exclusivamente de uma coisa – o peixe que pesca do mar. Os homens claro que as mulheres vivem com a maternidade como profissão e a conversa fiada como hobby. Os homens saem ou de noite cerrada para o mar alto ou manhã cedo para o mesmo, a buscar o sustento das muitas vidas que constituem a sua família. Pescam e vendem aquilo que pescam. Voltam ao mar apenas quando o dinheiro obtido com a sua ultima pescaria se acaba, o objectivo é apenas uma televisão nova, meia dúzia de sacos de arroz ou um naco de carne, nem uma casa mais confortável serve de desculpa, não é preciso na verdade já que a canalha passa o tempo na rua ou na praia ou na mata ou no rio ou onde quer que exista uma brincadeira nova. As mulheres passam o dia sentadas no largo mais próximo a conversar com as vizinhas mais próximas. Olham-me de sorrisos na cara quando passo por elas e um piropo sai sempre das suas bocas de grandes e escuros lábios a ver se conseguem um qualquer romance para dar mais temas à sua conversa diária.

A maior parte é de largas proporções, gordas em demasia nas suas cadeiras de plástico a comer um ou outro petisco e a beber refresco e cerveja e sumo e o que quer que haja à mão.

- Hola guapo, nos regala un refresco!

Lá de vez em quando uma mãe lá coloca uma mama à disposição para dar de mamar à última cria da ninhada. O resto da mesma anda por ai, ela não sabe, assim como não sabe a mãe que está ao lado. Passam em bandos de 8 – 10 putos, em correria e aos chutos a uma garrafa de plástico. Param quando me vêm e arrancam em desenfreada correria para me bombardearem com perguntas, que eu não lhes entendo metade do que dizem, não pelo meu castelhano arranhado mas pelo seu castelhano improvisado. Sorrio

- Habla dispacio shamo!

E eles que nunca falam devagar, nem com espaço entre palavras, nem em castelhano, nem em algo que eu realmente entenda.

Os homens todos na praia – ou a carregar o peixe do seu barco ou a ver o peixe do barco dos outros, em competição diária dita em quilogramas de cardumes ou em libras de um singular. O Shiva e ancião da aldeia sentado numa mais cadeira de plástico com o charuto no canto da boca. A barba branca de cor e comprida de desleixo pinta-lhe a cara negra. Sorri com todos os seus dentes gastos para mim e começa um falar rouco naquele castelhano que tanto me esforço para entender, sem esforço sorrio e ele satisfeito com o meu sorriso volta a sorrir e vira-se de novo para o mar. O mar, esse enche-se de pontos negros, putos às dezenas correm para a água, atiram-se e por ai se deixam ficar, riem-se aos berros, gritam de tudo, esmurram-se, sangram, levantam-se, voltam a correr para o mar e tudo volta à normalidade. De loucos é como descrevo os momentos entre eles, não falam entre si senão em altos berros, não discutem sem ser com as tantas palavras de ofensa que essas sim percebo. As emoções parecem estar sempre no máximo e os ânimos sempre exaltados. No entanto são tudo momentos fugazes, tudo passa e o silêncio volta aos berros longínquos de outra discussão.

Por volta do meio-dia é uma correria de canalha pela rua principal, uns a sair da escola e outros a entrar. Um professor que não é mais do que um visionário que finalmente fatigado do mundo se refugiou em tal lugar ensina o pouco que os miúdos aprendem. Que é senão as letras do abecedário e o dois vezes dois da tabuada. O necessário para contar os quilos de peixe da pescaria e apontar no caderno “das contas”, o necessário para se viver ali e arrisco-me a dizer, em perfeita e simples felicidade. Desculpem-me o risco, desculpem-me tudo mas não me desculpem as dúvidas de Puerto Maya, que as duvidas são a coisa mais constante nesta minha ida.

Um transexual no meio de um largo grupo de gente pela hora do fim de jantar na escadaria de uma de outras normais e coloridas casas e o mundo que me cai em cima. Retirado da aldeia por mais de um ano para a tal operação que lhe dá o estatuto de mulher e de volta com um par de mamas digno de qualquer senhora, a cara a denunciar algo e o corpo a contrariar. Assobia-me e

- Hola mi amor! Me regala un refresco!

e eu que regalo, e eu que me pergunto como está um transexual numa aldeia pequena como esta. E eu que me pergunto que o transexual não está apenas numa aldeia como esta, um transexual está numa aldeia como esta a conversar com um grande número de gente as suas risadas. E eu que me pergunto que esta agora bela mulher está no seu meio, sem descriminação, sem homofobismo, sem nada senão a amizade das suas amigas e a família que a sua original. E eu que me pergunto quem são os correctos que não é de certo a nossa dita civilização “civilizada”, que não é por certo o nosso Portugal que amo, com a nossa mente tão pequenina. Que eu nem sequer imagino um transexual a viver pacificamente em Cesar, ou em São João da Madeira, ou no Porto, ou em Lisboa senão escondido nos meios que são poucos os que compreendem e aceitam, que eu penso o quão pequenino somos por vezes neste nosso tão grande mundo. E esta pequeníssima aldeia, escondida nas montanhas, perdida de tudo e quase todos a mostrar-me tudo, o humanismo, a simplicidade, a amizade, a família, a vida, a paz e o sossego, e tudo o que prezo nesta minha curta vida a estar presente aqui. Sem complicações, sem exageros, sem dúvidas, sem questões, sem nada senão uma simples e normal vida.

É Simples e conciso: uma cerveja, um atum ou tubarão, os filhos, a família, a festa ao sábado à noite, os putos pela aldeia fora, o rio acima e o mar adentro, as palmeiras e os cocos, a música sempre presente, a taberna, a verdadeira igualdade entre todos, o casebre que não serve mais do que para abrigar da chuva que por vezes desaba, a conversa e o convívio entre todos, as discussões e ponto. Temos uma pequena sociedade a qual me dá tantas dúvidas. Digam-me lá vocês se realmente é o mundo que se tem que explicar a Puerto Maya ou Puerto Maya que se tem que explicar ao mundo.

A praia

O "Hotel"




Vista de cima


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Rock 'n' Roll

Este fim-de-semana apareceu de surpresa, mostrando de facto como em surpresa se tem momentos únicos. Tudo começou a meio da tarde da última sexta-feira dia 25 de Setembro do calendário de Cristo, quando estando eu a descansar um pouco as pernas, recebo o convite para um passeio por um normal centro comercial com uma prima e a prima dessa prima. Como me dizem que o centro comercial é o tal que tem no seu último piso o Hard Rock Café – Caracas, o convite foi aceite de imediato já que existem lugares que merecem sempre uma visita. Já ali tinha estado por duas vezes durante o mês de Agosto e embora não fosse um lugar de encantos exagerados, a música é boa e o ambiente descontraído.

Depois de passear um pouco à deriva por algumas superficiais lojas, decido que as vistas não são do meu agrado e sozinho subo ao último piso para uma cerveja revigorante e meia dúzia de cigarros filosóficos. Estava eu nesta vida, completamente perdido em tuta-e-meia de pensamentos para vos ser sincero (como quase sempre – não fosse eu sincero), quando na cadeira do meu lado direito e disposta de frente para o balcão de tal bar se senta uma rapariga de piercing no nariz, cabelo pelo meio das costas, seios extravagantes e fato formal. Eu, perdido em pensamentos pouca importância lhe dei até que ao pedir pela quarta vez o isqueiro ao barman residente, a tal rapariga curiosa com o meu sotaque me pergunta de onde sou. Foram as primeiras de muitas palavras partilhadas ao longo daquelas duas horas nas quais tive uma daquelas conversas ditas como interessantes. O tema predominante foi a música de estilo rock, não obrigasse exactamente a isso o lugar onde nos encontravamos. De seu nome quase cinematográfico – Scarlet e estilo demasiado formal lá fomos variando entre o espanhol e o inglês por variados temas sobre este variado mundo que é o nosso. Acabou-se a conversa, que pelo meio foi fugazmente interrompida por um concerto amador que por ali começou, com um até amanhã e troca de contactos. Estava feito o convite para assistir a uma série de concertos na Plaza Altamira que iriam acontecer no dia seguinte. O resto desse dia foi apenas a acabar comigo meio embriagado num normal club de Caracas, ao som de merengue e salsa e na companhia de mais um primo de meus primos – o interesse é demasiado pouco para estar em descrições mais pormenorizadas, não fossem todos os club’s, ditos como modernos, iguais em toda a parte deste nosso pequeno mundo.

O amanhecer do dia seguinte foi tardio derivado da tal noite em estados mais desafogados. A tarde foi passada atrás do balcão de El Canário, a afamada arepera onde vou trabalhando. Saí às oito, não em ponto que a boleia esperava e encaminhei-me então para essa praça em Altamira e que tanto eu confundia com Altavista – é o meu espanhol demasiado traduzido penso eu com os meus botões. Na fonte que determina o centro de alguma coisa e homenageia outro dos grandes libertadores de um normal país colonizado passo a mensagem à tal rapariga quase cinematográfica do dia anterior com as palavras de que aí já me encontrava. Desencontros normais e lá vejo eu a dita. Os trajes do fim de tarde anterior nada tinham a ver com os que ela vestia na altura. De formais e obrigatórios a qualquer secretária passaram para mínimos e loucos como obrigatórios a qualquer Rockeira que se preze. Sapatilhas de ponta branca e atacadores floridos, minissaia de padrão axadrezado que tinha em si cores como o verde, o vermelho e o preto. Cinto negro com brilhantes a conjugar com a curta camisola de mangas cavadas (adoro esta palavra), simples e preta. Estava visto o bonito estilo da bonita miúda. Eu mal me sentiria senão Rockeiro por amor fosse e trajes à moda da noite vestisse. As botas tiradas de um qualquer filme americano dos anos setenta, as calças de uma qualquer parada alternativa e justas de cima abaixo, a camisa axadrezada e preta e vermelha e claro, o tal cinto tão característico de gentes desta banda.

Os concertos dessa tarde estavam no seu término sendo apenas uma mão de temas as que ainda consegui assistir. Daí a proposta de mais grupos de puro metal que depois de duas carruagens de metro e meia dúzia de estações lá foram encontrados. Estávamos no centro da cidade (eu e a Rockeira), onde segundo ela caminhar teria de ser em passo rápido, alargado e sem olhar para trás, parar nunca e a atenção sempre multiplicada várias vezes. Sem sobressaltos lá encontramos a cova onde se iria passar uma mão cheia de concertos de “puro metal”. As gentes que se faziam ver no bar não ficavam nada atrás das suas (santa ignorância dos rótulos) famas. Cabelos pelo meio das costas, fossem eles femininos ou masculinos. Botas enfeitadas com puro alumínio e de dimensões exageradas, calças negras para combinar ou com a casaca de cabedal negra ou com a t-shirt dos Sepultura, Slipknot, Mettalica, The Korn e demais grupos Hard-rock. Cerveja aos pares que éramos dois e depois de meia conversa lá começaram a tocar as tais bandas de garagem. A primeira constituída por apenas dois elementos que à vez iam trocando entre a guitarra e a bateria. Só instrumental que as vozes não dariam para muito mais, mas com uma qualidade elevada para dois só elementos de tenra idade. Umas cinco músicas deram para encher o ouvido e levar a pouca audiência ao rubro. Estava aberto o espírito para uma boa noite de música. O segundo grupo era já maior, com duas guitarras, um baixo, uma baterista (loura, lindíssima e doida varrida) e um vocalista que depois de vários problemas áudio lá conseguiram tocar mais uma mão de canções originais e em bom ritmo, grande algazarra e loucura total dos transeuntes. Deu ainda para rir com um bêbado que bêbado em demasia ou se espatifava no chão para uma boa soneca ou dançava (que não era dança) aos murros a toda a gente.

Já chegava de música mais dura e fica decidido entre mim e a Rockeira abalar para um novo lugar. Dizia-me ela que um Pub pequeno, de ambiente agradável e Rock mais comercial. Eu, de gostos musicais mais variados preferi logo aquele lugar, não fosse o meu Rock um pouco mais light. Lá encontramos um táxi pelo meio de maiores sobressaltos para em quinze minutos chegarmos ao tal Pub. Estávamos de volta a Altamira (porra para a Altavista) onde a praça estava invadida por casais sentados nos bancos espalhados pelo parque, na relva que pintava algumas zonas ou apenas em pé, apenas. Bêbados viam-se alguns não fosse esta uma capital em pleno sábado à noite (sempre me deram curiosidade os bêbados nas praças das capitais ao sábado à noite). Táxis, autocarros, alguma policia (esta zona é dita como “mais segura”), grupos de pares de pernas em salto alto, na direcção de algum lugar de Rumba, grupos de pernas de salto altos, parados apenas, na direcção de olhares e esperanças em Bolívares, garrafas pelo chão quase de estilo Botellón, maços de cigarros, milhares de beatas e a prova do arrogante desprezo pelo habitat destas gentes (não será arrogante desprezo um pleonasmo?). Descemos uma perpendicular, cruzamos a mesma, atravessamos uma paralela e num cantinho com dois carros estacionados a esconder a porta mas não a luz néon vermelha e verde lá estava o Pub que o nome era de uma cidade britânica e não me recordo do mesmo.

Entramos. O Pub era escuro, não em demasia mas muito escuro, quase negro, três mesas apenas chegavam para cobrir a parede lateral, um poste forrado a madeira, como todas as paredes aliás, mesmo a meio do bar. O balcão corrido na outra lateral do bar que não sei se quadrado se paralelepípedo, pequeno apenas, pequeníssimo aliás – Lindo! Caminhar era difícil tal o empacotamento das poucas gentes ali estacionadas, falar mais difícil era devido à nada exagerada música em berros, harmoniosa, invasora de almas, de espíritos ou então apenas a acompanhar o estado de espírito. As paredes do bar forradas a vidro com pequenas estantes de madeira tão normais e cheias de garrafas de rum, whisky, vodka e pouca mais variedade é certo mas quem precisará de mais no entanto. Cerveja gelada a partilhar pelos dois que as contas eram feitas com o táxi de regresso na cabeça e danças. Dançamos até ficarmos cansados, até doer as pernas, até doer os pés, até doer a bexiga a abarrotar do filtrado da cerveja, até acharmos que era tempo de um pouco de ar e meia dúzia de passos seguidos para sentar o rabo numa normal paragem de autocarro. E voltamos finalmente para dançar mais, ouvir mais, falar mais, gritar mais, conhecer mais e apenas ficar satisfeito (não fosse o alivio a melhor sensação que pode ter o Homem). A música de Rock passou pelo império britânico, states, pela Alemanha, passou pelo México e a Venezuela, o Brasil e a Argentina, a Colômbia e o Chile e passou do inglês para o espanhol e no espanhol ficou que nós os dois (eu e a Rockeira) satisfeitos estávamos e a decisão já com hora tardia foi de partilhar um táxi e regressar a casa de um e de outro, primeiro à minha e depois à dela – Foi uma noite do catano e mais uma amiga a ficar!

Há coisas do caralho!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Caracas

Talvez devesse o tempo ser maior antes de estas palavras serem escritas. Falo do tempo em termos de intervalo e neste caso entre a minha chegada e as próprias palavras. Mas nada como emoções à flor da pele para descrições; são mais intensas, mais reais, mais hipócritas, mais tudo! Como sou uma pessoa de extremos cá estou a escrever palavras precoces, como sempre aliás.

Quando se trata a falar sobre Caracas, sobre esta cidade impossível, nem sei por onde lhe pegar e para vos ser sincero caros leitores. A cidade simplesmente equilibra-se na corda bamba – sem o conseguir todavia. Como já aqui disse anteriormente, a cidade tem como método de organização a total anarquia, a total ausência de regras, o total desrespeito por qualquer coisa que seja, esteja ela viva, a sobreviver ou completamente morta. No meio do calor que já não me é insuportável voam cheiros demasiados fortes e sempre exagerados. Quando se abre a janela de um carro na auto-estrada, o corpo é invadido por petróleos, químicos, alcatrão, merda, desprezo, buzinadelas, vozes arrogantes, vozes estridentes, berros, música, não música, barulho, batatas fritas, bolachas, cerveja, água, putas e toda e qualquer coisa que mais se possa imaginar presente no ar, solo, bermas, separadores mas principalmente nas mãos ou corpos das pessoas que vivem de um particular negócio chamado trânsito em Portugal e Cola na Venezuela. Sem parágrafo digo que a vida aqui faz-se por pontos, um ponto numa parte da cidade, outra casa noutra parte da cidade, um centro comercial no centro da cidade, uma arepera no meio da noite, um jogo de futebol ao fim da tarde e no fim de tudo o que mais importa é o ponto de fuga da cidade. Tudo o que geralmente se passa pelo meio, os trajectos de mudança de ponto, são entre vidros fumados e ao som de salsa ou merengue. Ou como descrevi anteriormente, na companhia de vendedores ambulantes a fugir das motorizadas em plena auto-estrada. Ah! Na companhia de putas também que estas se vêm com mais dificuldade nas fugas. No fim de contas, o meu ponto de referência é a Calla 10 – Vista Alegre, que não é mais do que a morada da minha temporária casa na cidade mais anormal (para mim) que alguma vez visitei. Faço-o de maneira simples, trabalho para compensar gastos numa tal arepera de manhã, tardes por vezes demasiado aborrecidas na Linda (nome dado a esta casa de família), noites esporádicas e aleatórias de tertúlias com amigos já quase de verdade, garrafas de rum esvaziadas, comentários despropositados, alguns demasiado racionais, e por fim algumas fugas desta mesma cidade. O meu objectivo pouco a pouco faz-se cumprir sem qualquer tipo de esforço da minha parte. Conheço as gentes daqui e não só gentes de classe média – alta que são quase iguais em toda a parte, com as mesmas tecnologias, os mesmos vícios, as mesmas conversas, as mesmas tentativas de conversas, as mesmas piadas e o mesmo amor de sempre mas sim gentes que marcam diferenças em mim. Gentes diferentes, verdadeiramente diferentes (em sentidos filosóficos e não humanitários que seja claro). Conheço pretos, brancos, brancos que são pretos, pretos que são brancos, pretos que são pretos e brancos que são brancos, conheço racistas, “Chavistas” e filhos da puta. Conheço doidos varridos e filósofos, conheço tentativas de jogadores de futebol, conheço viajantes por amor que nunca saíram de um bairro sequer, conheço homossexuais ninfomaníacos que não conhecem os seus limites, os meus limites por amor de deus. Conheço românticos e banais pessoas, conheço músicos sem talento mas amor pela música (que coisa mais bonita!), conheço gordos sem complexos e magros complexados, conheço miúdas de quinze anos com mamas de silicone (JÁ?!?!?!) e miúdas de vinte e cinco a sonharem com operações, conheço um jipe “Hummer” que nunca foi usado senão na viagem para o guardar na garagem de uma mansão – e a filha com tetos de silicone e a mãe também. Conheço ameaças de morte de alguns, roubos de outros, raptos de outros ou histórias de assassino de outros. Conheço tanto e não conheço nada no meio de tanta delinquência. Sair à noite não é um risco, é uma aventura pelo meio de uma selva cheia de animais armados não com garras mas com 9 mm de calibre, ou mais. Uma selva sem árvores para subir mas com becos para se ficar atracado. Selva sem animais furtivos à espera mas com ladrões à escuta. Selva onde não morrem 150 animais por semana para provar a cadeia alimentar mas onde se criam 150 cadáveres por semana para se provar absolutamente nada. Selva onde não se encontra a humidade do orvalho pela manhã mas onde se pode encontrar sangue encarnado numa vala. Selva onde não se adormece com o som de insectos durante a noite mas sim ao som de tiros e sirenes e gritos lá de vez em quando.

Daqui provem a primeira parte em que a cidade se vive por pontos sem linhas de continuidade. Funções que não são contínuas, nem sequer minimamente lineares mas antes pontos que por vezes fazem parte de estatísticas. Casas, ou centros comerciais, ou “Club´s”, ou areperas, ou vidros fumados com som de merengue e salsa – tudo pontos isolados. Depois, depois a fuga de tudo para paraísos, assim vive uma pessoa de classe média alta. Simplesmente não consigo imaginar como vive uma pessoa de classe baixa. Não consegui sequer uma descrição já que para uma pessoa que vive num bairro de lata, numa favela, num barrio, simplesmente não existe a pergunta de como se vive sem fugas

- No entendo…………………………

, eu compreendo bem, é preciso conhecer uma realidade para que se possa ter opinião dela. Vidas vividas em medo, em constante sobressalto, sem planificação alguma, sem que se perceba o significado de trabalhar para ter uma vida melhor, para conseguir algo.

- Porquê?!?!?!

A vida vive-se hoje e até talvez ao próximo fim-de-semana na festa naquela rua, depois um tiro pode acabar com ela.

Quase que caio numa implosão ao descrever isto.

E as festas em casa dos capitães do exército, o aniversário de dezoito anos da filha mais velha – empregado de camisa branca, laço, colete, tudo o que mandam as regras, mesas enfeitadas com dezenas de garrafas de vinho, whisky, rum, cerveja, tudo do melhor (ou antes o mais caro que existe), toalhas cor de vinho – bonitas, flores num jardim lindíssimo tratado por mãos de profissionais mal pagos, cadeiras aconselhadas por algum designer de interiores altamente qualificado

(estou a rir-me do ridículo)

e forradas com película de plástico transparente não vá um jovem mais imprudente derrubá-la. DJ a passar a ultima tendência de música numa aparelhagem e passo a citar: “- De topo!” para que os corpos lindos e estragados com o silicone dançarem até às três da manhã. E o capitão do exército, ou será general? Acho que era Sr. Tenente-coronel com o seu carro de alta cilindrada, gordo e bruto sentado na mesa a saborear um tinto chileno que segundo o mesmo: “- Isto é uma reserva de pinga, muito bom vinho” e o vinho velho em demasia, com mais de dúzia de anos e na garrafeira à espera “do momento certo”, como tantas outras garrafas solitárias na mesma garrafeira e o momento a nunca ser certo.

E o gajo que vem de metro agora que lhe roubaram a mota que demorou ano e meio a ser comprada a chegar as seis e pico ao trabalho, atrasado e a dormir, não zangado com o mundo, não contente com a hora, não nada, apático e com a mesma piada do dia anterior, a mesma história da semana passada, do ano passado, a vida parada, e o enorme sorriso na cara. E o primo deste que levou um tiro ou a avó que desespera num corredor de hospital à espera dos medicamentos que não existem ou do médico que não tem tempo, nem horário, nem vida, nem nada. Ou o filho de oito meses que ele, ou ela, fez com [14 – 18] anos e a novia ou novio que não existe, nunca existiu, e a queca dada num qualquer beco, encostados a uma parede de tijolo vivo com a vala de mijo e merda do vizinho de cima aos pés.

E o sorriso natural,

- Hola mi amor!

Vindo da mesma forma natural; e as dúvidas, as perguntas, as filosofias que não faço a ninguém senão a mim mesmo.

TENHO MEDO DAS MINHAS DÚVIDAS!

E a correria de portugueses e italianos que não emigrantes, que não Venezuelanos e apenas portugueses e italianos a viver de saudades daquilo que não querem mais. As panederias e as areperas e as casas de apostas de cavalos de corrida de tais gentes com anos seguidos sem férias e agora ao volante de grandes carros e sonos em grandes mansões de satisfeitos e realizados. E famílias inteiras sem nação quase que este país permite tudo. E as felicidades nada feitas de mentiras mas feitas prisioneiras de tal cidade – As fugas! E a minha admiração por pessoas que não sei se justas, não sei se admiráveis – As dúvidas.

E a cidade de Caracas, finalmente entre montanhas, um vale gigante onde quatro milhões de pessoas vivem sem espaço para viver; o metro entupido, as auto-estradas de estacionamento, os prédios a invadir outros prédios e as montanhas pintadas de vermelho tijolo – REAL! Barracas e barracas e barracas e milhares, milhões de barracas nas encostas do vale dos ricos com muros de tijolo vermelho e pobre.

Lá em cima no Ávila para onde o teleférico nos transporta, um hotel abandonado com um nome de um ex-presidente – abandonado; com um centro comercial amarrotado, uma pista de gelo artificial, cavalos arrendados e turismo tradicional que não vende mais do que uma mostra do ridículo do mundo em geral.

E finalmente a minha vida que nada tem para contar em factos e tudo tem para descrever em visões, audições e tactos. E as minhas palavras que já não são frases, já não são nada tal a impossibilidade de descrições mais reais.

E depois do finalmente e no fim de tudo, o sorriso natural, a dança louca, a piada com mais piada no mundo, o abraço apertado, o beijo carinhoso, o “Hola portugues”, ensinamento de vida, a arepa aberta, a conversa fluida e o mais importante de tudo,

Hola mi amor!”

a ser o que mais me importa aqui e o que mais me alegra aqui. A vida no final de tudo continua a ser simples.

Completamente alterado, acendo um cigarro, abro mais uma cerveja e escrevo um ponto final. Sem parágrafo que a vida aqui não tem continuidade de novidade.

Parênteses para explicação: o “Hola mi amor” não é especial por vir de alguma pessoa mais especial mas sim, é especial por vir de todas as moças que conheço, o trato das mulheres aqui é simplesmente divinal e por isso este meu amor por esta frase e não por alguma pessoa. Existem coisas que por vezes é preciso explicar!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Puerto Maya" - Capitulo 1

Cada um de nós sonhou ou sonha com o seu lugar perfeito, o seu paraíso, o lugar onde gostaria de se retirar do mundo para o resto da vida. Muitas das vezes esse lugar é bem no meio do mundo conhecido, na multidão de sociedades ou apenas nas vilas do antigo e normal conhecido. Eu tenho o meu lugar numa dessas vilas – qual perfeição melhor do que aquela perto dos que conhecemos, dos nossos e das nossas origens, sem adornos de palmeiras, montes de aço ou apenas eucaliptos alinhados? Nada melhor do que um telhado de telha, casas caiadas e tascos modernizados. Nada melhor do que o adro da igreja matriz, a escola primária ou o largo da feira, nada melhor do que o monte baixo, a capela rosa ou a ribeira sem água, nada melhor do que a origem.

- Bem, nada melhor até um dia!

Não querendo desfazer o primeiro parágrafo, já que o “até um dia” é o dia feito defunto – digo que eu sem saber que tinha sequer paraíso, encontrei o meu. O nome é Puerto Maya e está aprisionado entre montanhas e mar. Uma pequena aldeia de pescadores perdida de tudo! Os habitantes são pretos, pescadores e animados e a vida é simples. PONTO.

Sobre esta vila fica apenas esta introdução, pois sobre Puerto Maya vou falar em breve quando a Puerto Maya regressar. Descrições aprofundadas de sentimentos em visões, os direi mais tarde. Ficam apenas aqui algumas fotos da minha primeira vez em Puerto Maya, em família e como encerramento da de reunião de primos. Passamos bem aqueles dias por lá. Agora, agora voltarei sozinho para sozinho desfrutar do que Puerto Maya é – o meu pequeno paraíso perdido.

Vila de pescadores


A "Bodega" local...

Prisioneira natural

A familia toda na praia...

Los tambores de Puerto Maya

Festa na Praia

Parabén Gil- o tio...

Qual será o mais bonito?

Tubarão Azul

ATUM!!!!!



"El Chiba" - O maior lá da aldeia!

Eu e a negrinha... Huuum...

Olha pr'ó menino!

"Disco Dance" - Saturday night Club!

Julio, Juan José, Gilinho, Jeferson e Cosita!!!


Eu e os pretos - Boa gente, boa gente!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

YO ME QUEDO EN VENEZUELA - CARLOS BAUTE

Porque por vezes existem musicas que fazem mesmo sentido!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A caça

Sou bom ou muito bom em tudo o que faço. PONTO. Os meus senhores pensam que isto é pura arrogância da minha pessoa. Eu sabendo isso vos digo:

- Vocês são uns idiotas!

De uma maneira não mais humilde mas sim menos arrogante vos digo que sou bom ou muito bom em tudo o que faço. Vocês podem facilmente refutar esta afirmação se eu não vos tirasse tal trabalho à partida. O que é bom ou mau? O que é muito bom ou apenas razoavelmente bom? Para mim isso depende apenas do termo de comparação – para com quem ou para algo. Eu tomando isto como pressuposto vos digo que sou bom ou muito bom em tudo o que faço. O único termo de comparação que tomo é apenas o que interessa e pondo em palavras – Eu mesmo (reparem no eu de E maiúsculo).

Tomando estas palavras como inicio vos digo:

- Eu fui à caça e não sou bom ou muito bom naquilo que fiz durante essa caçada. PONTO.

Embora o poder de ter uma arma de fogo na mão e disparar a mesma me eleve ainda mais o meu ego, me faça sentir a força mais poderosa do mundo (qual deus qual o quê), eu via-me desgraçadinho para acertar nos ainda mais desgraçados coelhos. Matei dois e falhei seis, para matar dois precisei de quatro tiros, para falhar seis precisei de doze e mais precisaria se a espingarda não fosse de apenas dois tiros – carrega-la dá tempo aos ditos para se escapulirem.

Chegados da Gran Sabana o meu tio Victor nos disse:

- Vamos à caça!

E nós fomos.

Duas horas e meia de viagem até um lugar qualquer perdido no meio de campos de milho a perder de vista (desta qualquer nome de qualquer sitio não será mencionado pelo simples motivo de não ter prestado qualquer atenção a nomes), chegamos a um lugar a que o meu tio chamou de rancho mas mais não era do que quatro paredes com tecto de chapa. Chapa esse que de contínua formava género de um telheiro onde já estavam penduradas umas quantas redes e onde penduramos as nossas para pernoitar a única noite que iríamos ficar por ali.

Chegamos e fomos recebidos por um banquete! Os meus caros se vissem o banquete decerto pensariam que estou louco tal a duvidosa origem da comida ou o seu estranho aspecto mas, eu de novo vos digo:

- Fomos recebidos por um banquete!

Aquelas HÚMILDES gentes deram-nos a comer o melhor que tinham, um tacho com javali frito, preto de queimado e salgado de sabor, forte como um touro e que a mim me soube como das melhores coisas que o meu paladar já experimentou. Outro tacho de arroz branco – assim só; e outro tacho ainda com javali estufado com ervilhas, cenouras e um molho simplesmente divinal. Enchi o prato, abri uma cerveja, sentei-me na rede e comi deliciado com o sabor daquele momento.

Sentado a comer tinha a visão de, e passo a descrever: Um charco de merda de porco onde os mesmo estavam deitados a tentar o refresco para tanto calor; uma cerca de arame farpado que fazia de fronteira a nada; um bezerro amarrado a uma árvore e a tentar a sombra impossível àquele sol; uma dúzia de cães de caça com o mesmo número de ossos de um qualquer cão mas com a relevância de estes terem apenas pele a cobrir os ditos; pintos e galinhas a cagar tudo – inclusive as minhas botas; tudo aquilo que uma quinta tem mas dividindo pela razão de pobreza de tal lugar. Eu estava nas minhas quintas, os donos (um senhor na sua média idade e uma esposa no seu máximo peso) conversavam e davam estridentes risadas – estão tranquilos.

Almoço regado com cervejinha trazida nas nossas cómodas arcas de topo, descanso a pensar na longa noite e eis que os caçadores vestido a rigor se montam em cima da camioneta para serem uns machos valentes. Ao fim da tarde a caça foi à perdiz que com a vegetação alta e típica da época das chuvas pouco se fizeram mostrar. Deu para dar meia dúzia de tiros e trazer umas cinco como petisco.

Regresso às nossas redes e novo descanso, este mais curto.

Já a noite ia alta, saímos de novo montados em cima da camioneta para em silêncio, a velocidades baixas e com focos de alta potência a iluminar o caminho, percorrermos os longos caminhos em terra daqueles hectares e hectares de milho.

- Olha ali um, olha ali um!

E de pronto o que segurava a espingarda, que rodava depois de uma matança, lá a punha a modos de jeito, cara no cano e PUMBA – MESMO NAS “NALGAS”! Ou na cabeça que era a maneira mais desejada. Lá dava o coelho três saltos no ar, duas voltas na terra e um de nós em salto da camioneta apanhava o troféu da masculinidade.

Foi assim até às quatro da matina, e nós, já satisfeitos dos coelhos, começamos a tomar atenção aos veados que cabrões não se fizeram mostrar nessa noite! Pelo meio ainda caçamos um crocodilo – SIM, um crocodilo, dos pequenos mas que deu para arregalar o olho e levar a excitação a quase orgasmos! Os dois locais que nos acompanhavam com olhos de águia, lá viram no meio de um charco um par de olhos azulados a brilhar à luz do foco. Paramos, mudança de calibre e o Joel com pinta, olho e mira deu-lhe um tiro mesmo na cabeça. Foi ver o gajo a boiar no charco. Com um pau lá puxámos o dito para terra firme e depois as fotos que vêm aqui em baixo.

A conclusão da caçada foi: 5 perdizes, 25 coelhos e 1 crocodilo.

Tiros de sobra e a mim que sempre fui caçador de galinheiro continuo a preferir matar para comer, pegar na faca e matar o meu almoço. Caçar por desporto e portanto em demasia parece-me exagerado e desproporcionado. Quanto aos tiros – bem, esses dão realmente um sentimento que vou desprezar ao máximo por ser demasiado poderoso.

Dormida e no dia seguinte ainda deu tempo para disparar a 9 mm e um chumbo raso na espingarda que dava cá um coice não muito fácil de segurar. Os alvos confirmaram a minha falta de pontaria e a certeza de que a caça não é para mim. Ficaram as memórias para recordar e as fotos para não esquecer.

xixizinho

A foto de praxe

No fim à que esfolar os gajos

O crocodilo e o seu assassino

o meu primeiro coelho




Leo

Cara até tenho. falta o resto

Joel e amigos

Manjar de deuses

Cascavel