terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um toque de Natal...

Rachei a cabeça, roubaram-me o passaporte, estou com diarreia, a sopa é a única coisa que consigo comer, não consigo organizar-me e racionalizar direito com o bombardeamento de acontecimentos, Brasil só depois de dia quinze e ainda me parece Agosto.

Deixem-me chegar destas três viagens pela Venezuela nos próximos quinze dias e explico tudo num longo e pensativo monólogo de como quando tudo corre mal é sinal que tudo vai pela melhor!

Passaporte novo a caminho não se preocupem!

Sem dúvida o mais louco Natal de sempre (e a gente a dar-lhe com o Natal em Agosto).

sábado, 19 de dezembro de 2009

Rumba

Mentem-me as luzes da cidade que se dizem natalícias, metem-me as pessoas com a alegria do aproximar do Natal, mente-me até o tempo que se diz Dezembro e eu sem sentir Dezembro, sem sentir frio, sem sentir o Natal com ele a rodear-me, a bombardear-me por todos os lodos, trezentos e sessenta graus à minha volta. Mentem-me os boboneros que não são mais do que vendedores ambulantes e que invadem qualquer mais pequeno canto da cidade impossível de Caracas. A cidade a vê-la como Natal seria vê-la da mesma maneira o ano inteiro já que tudo o que me mente, mente à cidade o ano inteiro este espírito que me dizem ser natalício. Os morros da cidade não são mais do que enormes árvores de Natal enfeitadas durante todo o ano com os milhões de pontos que são as luzes acesas vinte e quatro horas por dia. Excepto claro quando esta electricidade é cortada nos racionamentos exagerados com desculpas de consumos exagerados e apenas às pessoas que em exagero nada têm. Vivo a mentira do Natal neste momento e como tal não vou contar uma história de Natal já que este ano Natal não vou viver, apenas prolongar o meu Agosto por mais um mês que já vai entrar no quinto.

Conto no entanto histórias de rumbas, de festas, de paródias entre amigos que de prematuros já se fazem sentidos, conto histórias minhas que faço a história de um país, uma cultura, um clima e uma maneira de ser impossivel aos meus olhos que me minto dizendo que assim sou. Tudo é festa neste pais, tudo se faz em festa e em festa vivo estes derradeiros dias no país impossivel e longe do meu Natal. O trabalho nessa tal arepera continua quase sem dias de interrupção. Nas horas dessa mesma interrupção canso o corpo em demasia e quase em total fadiga que não me dá mais do que a habilidade de escrever estas palavras. Li uma vez que a mente cansada, embriagada, alterada apenas é a mente mais exposta, a mente que não mente e nesse sentido procuro descrever o que por mim se passa. Daqui advém a minha desculpa por poucas palavras neste sitio e que uso sem sentimento algum de culpa. Vivo e PONTO. Desculpem apenas o egoismo que não é sentido em verdade vos digo. A forma de ver o mundo já a aprendi, mas a forma de o dizer está a milhas de palavras de distância de o conseguir fazer como gostaria. Martelo letras apenas, sem desculpas que eu de culpado tenho tudo!

De festas vi muito nesta minha curta vida, sou uma pessoa de festas, como já dito sou de exageros e nada melhor para o demonstrar como uma boa festa que é não mais uma mentira de exageros, um escape de nada que é a nossa mente que quanto mais de festas mais vazia se torna, eu inclusive e assim o continuo a fazer que mais do que mentir a mim mesmo, minto ao mundo a mentira que sou. Sou de festas e nunca na minha curta vida encontrei festas como estas as latinas. É do calor digo eu, é das gentes cheias de calor que procuram o refresco em tudo menos naquilo que lhes baixa a temperatura corporal, pelo contrário, procura refrescos em tudo aquilo que lhe sobe a temperatura, o rum, o whiskey, a cerveja, a dança, sim a dança que sempre colada a outro corpo, a dança que alegre, que mexida e os club’s que não dão mais do que a oportunidade da dança de dois corpos fundidos, promovem a promiscuidade e alimentam o sexo mútuo. Que inveja a minha de na minha velha Europa não ter este tipo de promiscuidade, temos a dita mais acentuada na nossa mente mas nos corpos, nos corpos falta-nos promiscuidade, falta-nos quebrar a cruzeta enfiada nas costas, falta-nos o merengue ou a salsa sem que esta seja pormenorizadamente ensinada, falta-nos os pés a explodir de naturalidade, falta-nos deixar a vergonha num canto e cumprir com o nosso verdadeiro destino de promiscuidade, falta-nos deixar a mente invadir o corpo que essa sim é promiscua em demasia. E eu agarrado a uma morena, com os seus seios pegados ao meu peito, a sua respiração no meu pescoço, os meus lábios na busca dos seus que os encontram por certo nem que seja na sua fuga dos meus. E os seios colados ao meu peito com a mente a tentar controlar os pés na dança nunca conseguida de não lhe massacrar os pés. E a respiração ofegante, a música cheia de música, o rum a subir à cabeça – dos dois. E a minha voz que não em espanhol, não em português, não em anda que não o desejo dos lábios dela. A música passa, a companheira roda e a dança sempre a mesma na mesma dificuldade do controle dos meus pés com a sintonia dos meus lábios na busca de algo mais do que a voz que nada diz. Paro, olho à minha volta, refresco-me mais uma vez com as chamas quentes que me invadem o corpo, o gelo toca os lábios mas fica de fora, o Cacique ou a Santa Teresa, tudo devidamente destilado escorrega pela garganta enquanto aquece a alma e tudo desfoca, as luzes que iguais em todo o mundo, as paredes ou as televisões de imagens repetidas de iguais, sem diferença alguma. Mas as gentes, as gentes parecem deslizar no meio da pista, sempre nunca demasiado coladas, apenas fundidas! E deslizam, deslizam, deslizam e eu sonho com o deslizar que nunca consigo mas que tento, e eu que vivo uma extravagância do meu ser mentido que é esta mentira das festas que afinal o são em todo lado mas que ao fim, aqui, a mentira é menor, é a sinceridade dos corpos mostrada no maior decote jamais visto com os seios colados à camisa adversária no constante jogo que é este das pessoas. Não existem falas, não existem vozes, existe apenas a música cheia de música e de dança e corpos fundidos, existem erecções e sentimentos fogazes, precoces claro mas sentimentos, sem nada mais do que corpos mentidos a atrapalhar porque nós gostamos de nos atrapalhar no jogo das pessoas, parece que precisamos de um estorvo pelo caminho e aqui no meio de tanta mentira encontro a sinceridade do jogo das pessoas, porque afinal de contas, a descoberta é feita por experimentação e nada mais do que isso, porque afinal as emoções são para serem jogadas num tabuleiro em que as peças são as verdadeiras pessoas, tabuleiro que nunca de xadrez porque as movimentações podem ser em todos os sentidos, desde claro que obdeçam aos tempos da música cheia de música. E eu embriagado, com o rum apenas tocado mas com a alma embriagada dos suores do corpo pegado ao meu, drogado com a sua respiração, excitado com os seios e a boca e as mãos e a pele e tudo o que seja movimento contrário à minha dança. E pergunto-me quanto vale tal agradável e saudável promiscuidade, e por uma garrafa de rum tenho-a toda que é o prémio à flanela mais molhada, e por fim ao corpo mais desnudo e que sem sentido que naquele estado a garrafa já estava vazia mas que é renovada. O meu sorriso, o meu sorriso! A minha alegria torna-se demasiado incontrolável que os exageros mostram tanto e eu vejo tanto com os exageros, juro por minha honra que adoro os exageros (meus e dos outros) pelo o que me fazem vêr, ou viver. E a rapariga pá! Acabou com os enormes e molhados seios ali à minha frente, sem nada para os cobrir e eu sem tocar que os braços não alcançam três metros (sim, eu tentei), mas a vista plena de alegria que é a de ver dois belos seios de uma mulher!

Acabo a noite completamente exausto, fatigado do corpo e da mente, não entendo, vivo sem entender, disfruto com a corrente, mas no fundo a minha mente que é sem dúvida mais promiscua de todas não entende a promiscuidade dos corpos mas que a disfruta sem dúvida. Eu consigo ver muito, mas não consigo explicar nada. Uma vida tem muitas noites mentirosas e quentes, e essas mesmas noites têm ainda mais momentos ainda mais mentirosos e quentes. Perdi-lhes a conta mas recordo-os a todos (por vezes das bocas dos outros que com repetição me digo exagerado em tudo menos na memória). O Natal em trinta e três graus de temperatura é sem dúvida um Natal diferente, que afinal é o mesmo de todo o lado! Um bom momento para com os meus, este ano vai ser Natal em Agosto, não, este ano não existe mais do que um Natal de brincadeira, como todos aliás.

Kris, Gilinho, Loura que não sei identificar


Carlitos, Brahein, César, Richard, Vanessa, Gilinho

Merengue com Maria Fernanda e Gilinho

Merengue com Maria Fernando e Gilinho (Richard e Ricardo em plano de fundo)

Bethania, Gilinho, Ricardo, Maria Fernanda, Vanessa e Richard

"Club One"

Bethania, Gilinho e Vanessa

Outra loura que também não sei identificar, Gilinho e outra Vanessa

Johana, Catherine, Leonardo e Gilinho


Gilinho e cambada de loucos (literalmente) que não sei identificar

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Um momento de filme

Por muita desilusão que estas palavras possam trazer a certos amigos que em apostas entraram, ainda não foi desta que fui preso. PONTO.

Existem momentos que valem a pena recordar, este não é um desses momentos, mas por uma questão de curiosidade e para mostrar que nem tudo são rosas nestas minhas andanças, vou contar aqui um pequeno episódio. Que este episódio não deixe alguma alma mais preocupada por amor de deus. Declaro-me completamente inocente em qualquer situação em que seja inocente – como esta!

Era a noite de dois de Novembro a caminho do dia três de Novembro do ano de Cristo de dois mil e nove quanto tudo se passou. Poderia começar por dizer que era uma vez, mas esta vez espero que não seja mais por isso o era uma vez passa a vez ao foi uma vez, por volta das dez da noite, em casa estava muito sossegado quando recebo um telefonema para ir a um tasco aqui ao lado jogar um pouco de bilhar e beber uma cerveja. Como o trabalho diário estava marcado para começar às duas da tarde do dia seguinte, aceitei o convite sem hesitar. Eu e o outro, de seu nome Alejandro Nava lá fomos ao tal tasco que tanto me parecia português. Meia dúzia de velhotes na conversa diária dos factos mais relevantes da vida de cada um, sentados à volta de uma mesa com a sua individual cerveja na frente; três rapazes à volta de uma das seis mesas de bilhar que ali existiam; dois empregados à espera do terminar do dia que nunca mais se aproximava; bandeiras, cachecóis, objectos de recordação, de decoração, mesas de tampo em pedra e pernas em ferro (não maciço claro) e mais uma série de parafernália penduradas nas paredes ou tecto ou apenas pousadas no balcão; um lugar familiar!

Nós, lá ocupamos a nossa mesa, pedimos as duas cervejas e jogamos um bom momento de bem-estar até ser hora do tasco fechar – meia-noite e hora de mudança de dia. Não satisfeitos ainda, compramos meia dúzia de cervejas e paramos na puente como é conhecido o miradouro ali ao lado com uma vista de luzes e luzes e pontinhos de milhares de luzes que é Caracas de noite. Por ali ficamos um bom tempo na conversa que tinha como tema predominante o “disparate de politica” de Hugo Chavez e que ficará para uma crónica futura, que espero ser em breve mas que não hoje que hoje joga o Glorioso e um gajo não pode perder tal acontecimento.

Terminada a meia dúzia de cervejas, que dividida por dois deu três a cada um de nós que éramos dois, lá começamos a descer a colina de Vista Alegre em direcção à minha temporária casa. Numa curva mais apertada do que noventa graus e com a intercepção de outra calle, saí uma motorizada que nos começa a seguir. Sem lhe dar importância lá seguimos o nosso tranquilo caminho, até que. Até que reparamos que a tal motorizada nos seguia independentemente das estreitas ruas pelas quais seguíamos. O meu companheiro de sobrenome Nava, com a sua já treinada mentalidade pela negatividade dada pela delinquência em tal país, pensou logo tratarem-se de dois malandros (eram dois os da motorizada) que nos seguiam com intenções que agradáveis não seriam com certeza. Com tal pensamento na cabeça começamos a fugir, a tentar escapar da moto e em direcção ao posto de polícia de Vista Alegre. Este estava fechado e com a motorizada sempre por detrás de nós continuamos a andar, sem qualquer tipo de paragem até ao momento em que a nossa paragem foi obrigada por outra motorizada que nos cortava o caminho. Esta sim, estávamos certos que era da polícia e então o carro é parado para logo a seguir ver chegar a motorizada que nos seguia com outra atrás de si mas de luzes desligadas (que não demos por ela). Eram então seis polícias de volta do carro. A partir daqui foi o fim do mundo! Pelo menos para mim que nunca na minha ainda curta vida me deparei com tal pânico – dos polícias e meu inclusive. Ao desmontar das motorizadas, aqueles gajos sacam-me das suas pistolas, armam-nas e com elas apontadas a nós começam aos berros para sair do carro, que nós de braços no ar e a dizer que não tínhamos nada lá saímos do carro. Fomos os dois encostados ao carro, mãos no mesmo, revistados até ao nosso ínfimo mais interior (digo interior da forma mais literal que existe que é esta das palavras), insultados até ao nosso pior defeito (eu juro que não tenho metade dos defeitos dos quais me apontavam – inclusive o da pistola estilo SS), para novamente sermos revistados e novamente que eu fui revistado três vezes (um dos policias estou seguro que encontrava prazer no que fazia). Eu, sincero, que depois do pânico inicial de ver uma arma apontada ao carro fui tomado por uma enorme calma e com essa mesma calma lá fui dizendo no meu enrolado castelhano e acompanhado pelo perfeito castelhano do meu amigo que pensávamos que eram malandros que nos seguiam e por isso o medo de tal motorizada, fomos dizendo que eu estava de férias e que não tínhamos nada. “Droga?” “Não, não temos señor polícia!”. Com a revista às nossas pessoas e ao carro a terminar, lá veio o pedido de Cédula de identidade por favor. E eu que não tinha, claro, que só tinha o passaporte e que o mostrei e que juro por sei lá o quê, que a partir daí tudo foi mais fácil e que lá nos deixaram ir tranquilamente sem demais consequências. No final das contas ficou uma história para contar e um aviso (enorme) para ter em conta. E eu que tão cuidadoso com os avisos, que nem os tenho senão das bocas que viveram os avisos. O cuidado nunca é pouco e agora está re-re-re-re-redobrado.

Só mesmo para deixar um conto que quase pareceu de filme mas que a mim não me pareceu nada de filme. PONTO.

domingo, 1 de novembro de 2009

Curaçao

Com a data do meu visa de turista na Venezuela a aproximar-se rapidamente do fim, uma solução teria de ser pensada com brevidade. Ao contrário do que pensava, nem o consulado português em Caracas me poderia renovar o visa, nem a sua renovação seria fácil. No fim de contas e por lógica teria de ser o governo Bolivariano da Venezuela a prolongar a minha estadia neste país, o que prometia ser demoroso e demasiado burocrático. Previa aqui largas dificuldades à continuação da minha estadia neste tropical país. Nada que uns poucos de Bolívares não resolvesse já que aqui tudo se compra, inclusive a nacionalidade Venezuelana. O meu objectivo no entanto não era esse, por isso a segunda opção que apareceu durante uma conversa entre o meu tio Gil e outro fugido português na área de negócio das agências de viagens mostrou-se bastante mais viável. Esta opção seria a de sair da Venezuela por vinte e quatro horas e voltar a entrar, o que de inicio me pareceu um pouco arrojada pela dimensão de tal país. Seria de facto arrojada demais se não existisse um pequeno conjunto de ilhas a meia hora de viagem a sobrevoar o mar do Caribe. A viagem era barata e por dois dias o preço mostrava-se convidativo. Ficou assim decidida a minha viagem à ilha de Curaçao pertencente ao arquipélago das Antilhas Neerlandesas que por sua vez pertence ao Kingdom of Netherlands – Países Baixos em português e aquele país tão longínquo lá na minha Europa.

A ilha do Curaçao é uma pequena ilha na costa da Venezuela com cerca de cento e cinquenta mil habitantes. Ponto. A etimologia da palavra Curaçao nunca se conseguiu realmente determinar originando todavia debates sobre o mesmo. A mais agradável aos ouvidos portugueses é a de que o nome se deve à palavra portuguesa coração já que a ilha descoberta por um grupo de navegadores espanhóis no final do século XV era um importante ponto na rota dos navegadores, tendo sido possivelmente um centro de tráfico de mercadorias. No entanto existem registos de outros nomes que teriam sido dados inicialmente como Curasorbo e Curasoto que significam respectivamente “trago de bebida para cura” e “matagal de cura”, assim como a palavra Curaçao pode ser entendida como a palavra curar. Estes nomes foram dados por portugueses pois a ilha forneceu a cura para o escorbuto que abundava nas tripulações das naus portuguesas que por vezes por ali passavam, provavelmente com a grande abundância de frutos e respectivas vitaminas presentes na flora da ilha. Ponto. A linguagem local é o Papamiento, que diz uma mistura do espanhol e do Deutch (Deutch a linguagem dos Países Baixos). Embora praticamente todas as pessoas falem o mínimo de espanhol e o mínimo dos mínimos de inglês. Ponto.

Esta pequena introdução vem de uma pequena pesquisa. Apenas porque os nomes são para ser ditos e entendidos por aquilo que são. Porque eu gosto dos nomes mas mais gosto das suas origens, porque nos diz tanto e apenas porque sim.

Saí de Caracas ao meio dia em ponto como dizia o tal ticket. Para meu grande espanto mas sem qualquer tipo de pranto, digamos aqui entre nós que neste país, o termo funcionar na normalidade é uma utopia, para nem sequer referir o termo pontualidade (e nós portugueses tão suspeitos nesta matéria). Meia hora de voo e eis que anunciam a aterragem e eu, estúpido, a pensar onde raios estaria a ilha que só via mar – estava na janela do lado direito do avião – claro! Lá de cima nas alturas o horizonte era apenas mar já que a ilha se via de uma ponta à outra, uns meros trinta e pico quilómetros de comprimento multiplicados por uns quinze de largura. Aterra-se num aeroporto minúsculo com não mais do que uma mão cheia de avionetas (ou deverei dizer jactos privados) estacionados em frente a um edifício que tinha montadas em si as letras maiúsculas de CURAÇAO. Aí estava eu, noutro país, noutro lugar, noutro continente. Estava de volta à Europa a uns curtos quilómetros de mar de Caracas. Saí (do avião), entrei (na sala de recolha de malas que não recolhi nenhuma que a minha era um par de cuecas, uma camisa para a noite e uma t-shirt para o dia seguinte), voltei a sair (novamente da sala de recolha de malas que não recolhi nenhuma que a minha era um par de cuecas, uma camisa para a noite e uma t-shirt para o dia seguinte) e entrei (pensava eu que afinal era sair) no aeroporto em si que não era mais do que um grande pavilhão com duas paredes perpendiculares uma à outra e apenas espaço aberto a fazer as vezes das outras duas paredes. A fila para o check in nos dias de chuva tropical por certo fica encharcada. Fiquei encantado com a simplicidade que é beleza de tal aeroporto (não mais do que a beleza do meu Sá Carneiro que tem duas coisas tão bonitas – ou me manda, ou me devolve. Se bem que a estação de comboios de Ovar não fica nada atrás. Mas adiante!), quase sem fronteiras.

(Gosto particularmente da expressão: Mas Adiante!)

Mas adiante que se faz tarde!

A primeira coisa que fiz é a primeira coisa que faço quando saio de um aeroporto: Matar o danado vício, que não era muito mas que festejava uma mais chegada. Sentei-me na esplanada do bar ali cerca, pedi uma cerveja e com o tal vício na boca fiquei eu ali uns quinze minutos (pouco mais ou pouco menos) a pensar no que estaria eu a fazer numa ilha Holandesa perdida no meio do mar Caribe, não sozinho que estava comigo, a meio de Outubro e num estado de calma que pouco a pouco me vai sendo normal. Deixei o pensamento de lado, uma garrafa verde vazia, uma beata no cinzeiro e dirigi-me à central de táxis que os autocarros eram escassos.

- English or Spanish? – perguntei eu.

- Como quiera – respondeu uma senhora entre os seus trinta e quarenta anos e negra e rechonchuda e que não sabia se feia se bonita.

- So, okay, can you please tell me a hotel or a place to stay not too expensive?

- Donde?

- Well, if it isn’t too expensive in the centre of the city, the capital of the island, how is it called?!?!?!

- Willmstad!

- Ah okay, so how much is it per night around the centre?

- It will cost you 80 US $.

- Well, don’t you know something cheaper?

- Se quiere en la ciudad this is the mas barato!

E eu a pensar que porra, que cinquenta euros por uma noite que foi preciso ir para o fim do mundo (e este que não existe) para pagar o preço mais caro da minha vida por uma noite. Eu habituado às camaratas de dez e vinte e trinta pessoas e de cinco e dez e quinze euros e vinte lá nas loucuras das camaratas de cinco pessoas.

- Okay, so can you please take me to a cheap hotel in the city centre please?

- yes, claro que si! Te va a custar 10 US $.

(perdi a cabeça e indignado meti-me no táxi!)

Dez minutos depois e cheguei eu ao Holiday Beach Casino Hotel, que pela recepção se mostrava grande e bom hotel. Cordialidades e afins, pagamento do táxi, e eis que me dizem que não têm quartos disponíveis. Tentei o meu maior ar de indignado e perguntei senão teriam realmente nada. A conversa passou-se então em dialecto local entre a taxista (penso que não seria do CDS-PP) para no fim a recepcionista dizer que como a estadia seria de uma noite apenas estaria disposta a dar pelo mesmo preço uma das cabanas em frente à praia que são alugadas exclusivamente pelo período de um mês. Pensei logo que pelo menos teria qualidade de estadia.

Recepção, piscina e eis que se vê uma pequena baia artificial com uma barreira artificial que embora deixasse entrar a água do mar dava a calma necessária a uma qualquer praia paradisíaca sem quaisquer ondas e assim o turista relaxado na procura do baixar de temperaturas se deixar estar na água com um qualquer famoso cocktail na mão. Era sem dúvida um desses resorts de luxo espalhados pelo mundo a mentir as viagens. E eu ali estava, como um qualquer turista, maravilhado com a vista, a falar com os meus botões que me diziam que o tal lugar era realmente bom e de qualidade. Eu dizia aos botões para terem vergonha nas linhas que os cosiam e eles diziam-me para eu ter vergonha na cara que não podia ficar indiferente ao tal “luxo” das sociedades. Ninguém ganhou na discussão e assim fiquei quieto e calado. Deixei as cuecas, a camisa para a noite e a t-shirt para o dia seguinte na cabana que esta quase no meio da praia, deitei-me uns cinco/setenta minutos, meti uns calções de tecidos próprios de serem molhados, um livro por debaixo de um braço, uma toalha por debaixo do outro braço, caminhei dez metros e no meio da praia deitei-me a ler. Entre mergulhos, leituras, cocktails famosos, cigarros fumados pelo vento e análises quase freudianas de velhotes Estado-unidenses por ali espalhados, passei pelo dia até ao cair do sol. Quando este se caiu dando lugar às estrelas ali pertinho, tomei um banho com sabão daqueles pequeninos que sempre fanados e nunca aproveitados, vesti umas calças, a camisa para a noite e chamei um táxi (os sacanas dos autocarros não queriam mesmo nada comigo que já não os havia àquela hora).

- English or Spanish?

- Como quiera señor.

- Okay, so, for the centre of the city, how much is it? There are some places to eat and some bars around there?

- Si si claro que si, la bahia, es lo mejor. 5 US $.

- Okay, so take me there please.

- No problem Señor.

- And, for going out, do you know something?

- The best is Campo Alegre!

- Is it a bar?

- Es un club de Striptease señor, la chicas san muuuuuy buenas, you have strips all night.

- Okay, thanks.

Veio-me à memória o facto de estar na Holanda e a prostituição ser legal. Veio-me à memória Amesterdão

- Fuck and suck fifty euros sir.

veio-me à memória.

O centro da cidade era dividido por um rio com uma ponte amovível, de um lado casas coloridas, do outro uma praça e mais casa coloridas. Os letreiros nocturnos de luz néon diziam que casino ou night-club, eram sete e meia da noite e as ruas estavam não desertas, não despertas mas a sentir o aproximar da noite, sentiam-se preparativos, existia algo no ar que dava ar de noite que vai ser de festa, aquele ar tão típico do pecado, da espera do mesmo. Os turistas do dia, da praia, já se tinham ido para os hotéis super equipados com tudo o que é preciso equipar, restavam meia dúzia de casais a caminhar de saco de plástico de um qualquer e normal supermercado na mão, certamente com os preparativos para a romântica noite no hotel que tem tudo o necessário. Não sei, é isso mesmo, não sei a que cheirava o ar. Cheirava a promiscuidade, que não era promiscuidade, cheirava a seguranças de porte quase Golias e pele escura, negra, preta a passar de mochila às costas por debaixo das letras néon de Casino, ou night-club e a entrar por uma portinha na qual quase não cabiam, assim por de lado da outra porta grande e principal por debaixo das luzes néon. Não sei, estava num estado que não sabia o que via, era estranho mas passou a deixar de ser quando olhei mais ao fundo, em distância. Aquele centro mostrava-se demasiado bonito. A noite fazia-se de calor tropical e o casaco que trazia na mão mostrava apenas o quão ridículo estaria eu a fazer. Como hábito adquirido pela minha bonita cultura, poderia apostar entre uns vinte e cinco e os trinta graus de temperatura naquela noite (assim como quando apostamos que aquele edifício tem mais de tal anos ou aquela distância é de tal metros ou aquela coisa de tal medida e sempre seguros de nós que somos os machos e que sabemos e as discussões de café acesas com tais trivialidades e que hábito mais bonito) e o calor que não sei se húmido, se seco, que apenas fazia calor e o meu casaco negro de coiro na mão a fazer suar a mão e eu que olho à volta, do outro lado do braço de mar uma série de casas empilhadas desnecessariamente já que a ilha quase deserta mas a mostrar as casas das cidades, as casas pequeninas e empilhadas, e coloridas com as cores a mostrar limites e fronteiras de casas e famílias e a cidade pequenina que dá vontade de abraçar de tão pequenina que é. Tudo aqui tem de ser dito obrigatoriamente em diminutivos, o fortezinho, o restaurantezinho, o barzito, as casinhas, os casinitos, a pontezinha, e as pessoas, grandes e negras e pretas e bonitas! O bigode a pintar a cara dos homens, daqueles bigodes pequeninos e fininhos nas caras largas e cabeças grandes ou as caras estreitas e cabeças compridas, e o bigode tão típico destes lugares tropicais. As mulheres, negras, pretas, grandes e de um encanto, não bonitas, não belas, apenas de um espanto só, só de uma vez se abre a boca de espanto, de desejo, de vontades e elas tão arrogantes a passar, a sorrir por dentro com o sentir do fulminar das nossas vistas nas suas pernas destapadas, ou nos decotados vestidos, ou nas suas nádegas esculpidas por algum deus que negro por certo. E eu ali parado quinze minutos no meio da praça a olhar à volta, no meio de uma cidade que nada tem de novo mas que me traz coisas novas. Não sei o quê por certo, o clima tropical, as gentes tropicais, e as vistas europeias, que não um Amesterdão mas antes uma pequenina vila rodeada de campos de Tulipas e moinhos movidos a vento e Amesterdão ali no meio, que as luzes néon.

E o gajo a passar por mim num sussurro:

- Ax, Cocaine, Weed, Cannabis, Marihuana, Heroin.

E não sei, que algo estranho, parecia tudo tão calmo e coisas tão fora do sítio. Caminhei até à outra margem e voltei. E pessoas poucas. Escolhi o restaurante que serve de canto à praça e manda a esplanada para uma estonteante vista da baia. Escolhi uma lasanha não pelas ganas de lasanha mas pelo preço mais convidativo, um branco chileno que fresquinho escorregava como o do Minho, que não verde mas quase. E um café e por fim um digestivo não porque sim mas porque a vista pedia, e a empregada exigia, e oferecia. Jantei sozinho e nunca me senti sozinho, viajei muito nesse jantar (pelas pernas da morena empregada inclusive), dei três voltas ao mundo, fui duas vezes à lua e tive ainda tempo para voltar a Portugal e matar saudades. Acabei o dito com menos 30 US $ no bolso e uma enorme satisfação interior, estava tocado não pelo copo de vinho ou pelo digestivo mas por uma calma e um sentimento que não sei, nunca o soube! Uma coisa que me passava pela alma e que me parecia quase de espíritos, uma erecção de prazeres tão meus, tão pessoais, tão quase sem poder partilhar, que sou tão egoísta dos sentimentos e o dessa noite foi só meu, que o estado não dopado mas a flutuar, sem consciência, sem nada, apenas uma torrente de pensamentos e sentimentos e vistas e tudo junto e eu a sentir que estava no topo do mundo, a ser mais arrogante que o outro que sou eu. Mas estava com a mente a tentar buscar mais, precisava de ver gente, precisava de sair dali e ver gente, queria estudar as gentes que só me apareciam taxistas desvairados ou perfeitos exemplos fe homens e mulheres e louros e altos e bem-feitos, da Holanda principalmente mas muitos e muitos e muitos e demasiados dos Estados Unidos da América que podres de bêbados se passeavam na rua sem passar ainda muito das nove.

Saí dali, saí da vista e meti-me numa curta perpendicular ali ao lado. Parei no primeiro bar que vi, parei mas não entrei. Li o letreiro de entrada que dizia Happy hour between 10 pm and 11 pm – 6 US $. Não eram dez ainda e assim caminhei um pouco mais, que foi pouco pois não eram dez ainda e já estava eu no bar a ver gente! Holandeses e Americanos sem dúvida, outro grupo que vim a saber mais tarde de ingleses. O bar estava nem por metade mas em meia hora encheu por completo. Encostei-me a um poste com vista para o pátio onde uma parafernália de instrumentos mostrava que naquela noite iria haver música ao vivo, Reggae como disse o barman e para não se afastar muito do estilo local. O baterista de cabelo pelo meio das costas, arranjado em rastas grossas e oleosas e o chapéu com as cores da Jamaica a tapar o topo, uma bengala de madeira de bambu pendurada às costas que me fez lembrar os velhotes de bicicleta com o guarda-chuva pendurado nas costas do casaco, pela rua central de Cesar abaixo em direcção às cavadas, vindos do “Abelino” e de umas punhetas de bacalhau. E que nada tem a ver com os velhotes de Cesar, muito menos com os do “Abelino” e no entanto um velhote com a barba branca a pintar-lhe a cara escura e baterista de uma banda reggae. A Happy Hour começou, os ânimos foram ao rubro, dei por mim no meio do grupo de ingleses que marinheiros com esposa no Pais de Gales, a brindarem ruidosamente a cerveja que transbordava dos copos com bastante frequência. Eu a falar das saudades dos meus tempos de Inglaterra e eles a falarem das suas saudades da SUA pátria. E a falar de futebol e do Glorioso Benfica e do Arsenal e das conversas de marinheiros que eu era infiltrado e que o Capitão do navio mercante podre de bebido a contrastar a dança das negras que sensuais na salsa e merengue e ele bruto e de braços no ar a anunciar o fim de algo (da dança talvez) com a cerveja a transbordar-lhe na cabeça, a banhar-lhe a alma que essa já suja de marinheiro da sujidade que é limpa dos marinheiros. E lá fora em frente ao concerto que entretanto tinha começado com o baterista viejo com ritmos nada apropriados para viejos, os louros, altos e vermelhos do escaldão diário parados, em frente e parados de bêbados que caiam em pé e parados, que conversavam, que a música não entrava senão naqueles exibicionistas como eu que não borracho como eles em frente ao improvisado palco berravam e gritavam sem ritmo pelo meio daquele louco e bonito ritmo do reggae.

Farto daquilo, viciado em mim e nos pensamentos, num estado que nunca afectado pelas duas cervejas afastei-me dos marinheiros, perdi o egoísmo e o egocentrismo e deixei-os ali a gozar a folga do dia seguinte que estava a ser a da noite, deixei-os em paz e sossego com as minhas desmesuradas e exageradas perguntas, invasivas para com eles e evasivas para comigo que não queria saber de mim. Deixei-me estar ali por dúzia e meia de minutos e fatigado com os Americanos louros e altos e parados e indiferentes à musica que dava ânimo aos mais bebidos apenas que esses sim eram os únicos honestos e sinceros para consigo naquele lugar, tirei o casaco negro de coiro do braço, meti-o na mão e saí dali.

Sem acreditar que tenha qualquer tipo de relevância digo que fora do lugar e com a música cada vez mais distante encontrei a paragem de táxis mais próxima, meti-me dentro de um táxi e

- Campo Alegre please.

O taxista não disse nada sequer, habituado que deveria estar ao nome, no lugar de pendura seguia uma negra que não sei se esposa, que penso o não dada a diferença de idades (nada com que as gentes daqui não me deixem de surpreender com as suas relações tão diferentes), não sei se amante que me parecia dada a sua maneira de se dar a ele, que não sei de nada e muito menos soube já que o idioma entre eles era aquele papamiento que tanto me intrigava e que metia espanhol por certo, algumas expressões que se pareciam às de linguagens centro europeias e raios me parta senão tinha expressões portuguesas. O Boa Noite, dito como um verdadeiro português não me lixem mas tem de vir de algum lado. O dialecto que tanto me intrigou com as suas palavras tão portuguesas ditas desprovidas de sotaque, sem nada e apenas uma palavra pelo meio de muitas sem sentido que diziam-se portuguesas com todo o seu ser. Assim a viajar pelas línguas perdi a conta ao tempo que demorei a chegar ao Campo alegre, o striptease club mais famoso de Curaçao e segundo uma pouco confiável fonte o maior striptease club existente no mundo sobre alçada governamental (que por sua vez tem a sua lógica já que só o facto de estar por alçada governamental limita por si só a muito poucos este tipo de lugares). Saí do táxi e entrei, pelo caminho consegui uma conversa ainda com um homem negro gigante que com toda a simpatia do mundo me dizia que mais do que vinte US $ não poderia pagar se quisesse o prazer mentido de uma prostituta – agradeci e segui o meu caminho em direcção ao salão principal onde um palco com um poste metálico e luzente das limpezas pormenorizadamente feitas todas as noites com a pele dos corpos do pecado (qual pecado qual o quê!), sofás para recostar a excitação de ver os corpos desnudos estavam dispostos á volta do palco. Mesas cheias de garrafas vazias e garrafas cheias ficavam em frente aos sofás e o balcão de onde saiam e entravam uma dúzia de barmen em direcção às mesas das garrafas vazias e das garrafas cheias, ficava situado atrás de tudo, do palco, das mesas e dos sofás dos prazeres. Cada sofá estava estrategicamente calculado para duas pessoas, com o recosto redondo a tomar a forma das costas de duas pessoas, com a particularidade de convergir de maneira a que estas duas pessoas se aconcheguem uma à outra. O cálculo parecia ir ao pormenor para que no fim o jogo de sedução vencesse e a plata dispendida fosse maior do que a de uma simples bebida, ou duas.

Sentei-me num desses sofás para duas pessoas. Sentei-me com vista privilegiada para o palco, com vista particularmente privilegiada para a barra cilíndrica metálica no meio do mesmo, preso por duas pontas, no chão do palco e no tecto do salão que este grande. Umas boas dezenas de pessoas e quase todas sentadas (e lá voltam as apostas sem sentido dos nossos machos portugueses). Pedi uma cerveja e deixei-me estar ali sossegado a ver. Poderia falar do tempo que estive ali sentado a ver mas perdi a conta ao tempo passados cinco minutos de me sentar e começar a ver. Nada mais fazia sentido no mundo senão aquele particular mundo. Esqueci-me de tudo e de todos, via apenas os homens sentados nos sofás calculados para duas pessoas e estudava o jogo das prostitutas em pé ao balcão ou a exibir-se nos corredores criados pelos sofás calculados para a intimidade de duas pessoas. Entre os sofás que tinham como centro as mesas de garrafas cheias e garrafas de vazias e apenas números grandes de garrafas faziam-se autênticas passagens de modelos. Passavam de negras a loiras, (gosto mais de loiras do que de louras), passavam de artificiais e plásticas a velhas e sempre orgulhosamente naturais, passavam obesas já e magras esculturais e passavam todas as mulheres de um qualquer sonho molhado de um qualquer homem. Eu admirava, repudiava, espantava-me, excitava-me, assobiava, falava, e despertava em mim qualquer tipo de emoção que pode uma mulher, miúda, garota ou senhora despertar em mim fisicamente. Assim me deixei estar na bancada principal daquele estádio a ver o excitante jogo que se desenrolava diante dos meus olhos, como um simples espectador a ver quem ganhava ou perdia – até hoje não sei quem ganha aquele jogo todos os dias, as dúvidas aliás são demasiado grandes – As dúvidas, sempre as dúvidas!

No meio deste desenfreado jogo sem regras começou o striptease. Primeiro uma miúda que sem me lembrar sequer da cor do seu cabelo, me lembro exactamente a forma artificial do seu rabo e dos seus seios. Lembro-me da maneira como usava isso a seu favor, lembro-me de como se deitava no chão e fazia um samba que dava a sensação das peças do seu corpo se desmancharem a qualquer momento, apenas porque as peças eram artificias. Trepava o varão de cabeça para baixo e lá no topo fazia-se deslizar suavemente até ao palco. Tanto se desenfreava na luta com o homem imaginário sempre por debaixo dela como lentamente tirava a parte de cima do minúsculo soutien ou a sua minúscula roupa interior tão sensual, tão dentro de moda e tão provavelmente cara! Acabou assim, não como veio ao mundo porque ao mundo veio sem saber de nada, ao mundo veio assim e apenas sem nada, nua por completo. Ali naquele palco onde um velho asqueroso de bigode e sotaque italiano apresentava cada movimento ao mínimo pormenor (e eu a dizer: - Cala-te pá!), ali naquele palco ela sem roupa nunca nua ficou, a capa que levava não deixava ver nada. Um corpo de mulher completamente desnuda transforma-se de repente na coisa mais feia, mais horrível do mundo quando deveria ser a mais bonita do mundo. Aquela capa que não deixa ver nada, que não deixa transparecer nada funciona como a impossibilidade de mostrar emoções; a invisibilidade da mulher. E eu ali, sentado quase a chorar, lembro-me que quase chorei quando a musica no fim mas a tocar, a mulher vestida apenas com a capa invisível que só ela sabe usar, o bigode asqueroso a anunciar a mostra da beleza da mulher e ela, ela saí em passo de corrida pela mesma porta que entrou, e a mesma porta que vai entrar mais uma centena de vezes, e a porta que dá para o mundo dela porque quando ela sai dele está ali – com a capa. E eu ali, sentado, mais asqueroso do que o bigode, mais encantado que um adolescente, absorto de tudo com o meu silencioso pranto e também a minha silenciosa alegria de ver aquilo, excitado claro!

Luta esta perdida à partida entre um homem e a racionalidade, luta esta perdida por mim que excitado estava com tudo aquilo que se passava à minha volta, excitado estava com os pensamentos daquilo tudo. A cerveja tinha morrido, eu estava parado no tempo durante aquelas duas músicas, nada mais existia à minha volta senão a miúda e a sua capa transparente, nada mais existia senão eu e ela e ela ali, com a sua capa transparente, que não era mais do que o seu pranto e eu ali indiferente a ela que ela indiferente a tudo. Senti desprezo no fim com toda a minha arrogância, senti pena com a ainda minha maior arrogância. Senti dor e revolta, senti tudo naquelas duas músicas! E a arrogância a fazer troça de mim que agora “La grange” a música que ouço e dar-me razão, faz troça de mim e eu tão pequenino.

Ela foi-se então por fim no seu passo de quase corrida com o asqueroso bigode a falar que eu não o ouvia e o odiava, eu que não sei o que é ódio sabendo que o odiava naquele momento. O público bateu palmas, rejubilou e gritou e eu finalmente deixei-me cair para trás para me encostar no sofá calculado milimetricamente para que duas pessoas se sintam intimas, sinta, dá-me riso o sinta, desculpem, para que duas pessoas se mintam mutuamente de intimidade.

Enquanto isto uma loura de seios estonteantes aproxima-se de mim e pergunta se quero companhia. Eu afectado com a mentira da dança digo sem hesitar que sim e ela senta-se ao meu lado no lugar por ocupar naquele sofá calculado ao pormenor pela mentira, estava completo agora que éramos dois. Ela mantém a sua distância que não física que estava ali pegada a mim como a obrigava o sofá calculado na matemática que se prova mentirosa, que eu nada próximo dela. Pergunto-lhe o nome e ela responde, não digo, não interessa, pergunto-lhe de onde vem e ela diz que da Colômbia, digo-lhe que sou um cretino e que estou ali a mentir a dizer que quero apenas observar, ver apenas, que sou um curioso de tudo e cretino e mais mentiroso sou quando digo isto que estou ali porque estou, porque apenas estou ali e que estar ali é apenas a prova de que estou a ali. Pergunta-me se quero ir para o quarto dela, digo que não que quero ver o próximo show e digo-lhe que não irei para o quarto dela, que não quero sexo, digo-lhe que eu pagava todo o dinheiro para ter sexo com ela mas digo-lhe que não gosto de sexo, digo-lhe que só faço amor, e digo-lhe que ela só quer sexo e que isso eu não faço, porque todas as amantes que tive foram de amor, mesmo aquelas que não sabia o nome sequer, que a minha entrega é sempre de amor por algo, um momento, uma pessoa, uma noite, uma coisa e que se pagar por isso vou perder o amor e digo-lhe que o amor é a única coisa que me resta na coisa dos sentimentos. Pergunta-me se estou apaixonado, é normal que eu falo de amor e só de amor e eu sem sentido algum que só eu vejo o que penso que eu saiba não há ainda máquinas de ler a mente. E ela no seu diminuto vestido que lhe consigo ver a roupa interior preta e ela a mostrá-la na esperança de me levar para o recanto do pecado dela (esta palavra do pecado faz-me confusão, vou tentar não a usar mais) e eu a dizer que não e ela a insistir a insistir até que lhe digo que lhe pago uma ou duas bebidas se ela ficar ali a falar comigo meia hora. Ela olha para o relógio, olha para mim e pensa durante três a cinco segundos para dizer que sim. As duas bebidas ficaram-me pelo preço de um livro de bolso por isso sem remorsos. Disse-lhe que me falasse dela, porque estava ali uma rapariga colombiana de vinte anos num pais onde a prostituição é legal e a prostituir-se, perguntei-lhe a história de vida dela e tenho quase a certeza que me mentiu em todas as palavras que disse, não sei, falou a verdade talvez, contou a história da triste vida que teve, contou a história de um pai e uma mãe com um negocio de roupa, a história de uma miúda que tinha tudo e perdeu tudo num “mau negocio”, que o irmão na universidade, que ela habituada a luxos, que ela sem luxos e sem vida (para ela), que lhe propuseram dinheiro em troca de “favores” e que com “favores” pagou um pouco mais de tempo de luxos, dela e dos país, que acabou esse tempo e que ela decidiu fazer uma “viagem” de dois anos e que agora estava no fim do primeiro ano, ali naquela ilha perdida do mundo para ser um mundo perdido de tudo o que o dinheiro possa pagar. Escutei-a e nunca interrompi, quando acabou perguntei-lhe uma coisa mais e que era senão como é que ela aguentava o sacrifício todos os dias, como conseguia aquilo todos os dias. Pela primeira vez vi uma expressão vinda de si e que foi não mais do que um sincero encolher de ombros seguidos de um: - Pienso apenas de que es uno dia mas. E pronto, fiquei vazio, não de mim mas de ela que a apatia que sentia era demasiado fria, demasiado contagiosa, que eu fiquei apático e sem saber mais do que pensar. Desviei-me da mente, olhei para ela e disse-lhe que ela tinha sorte por ter o sentimento mais horrível do mundo e que lhe dão o nome de apatia. Disse-lhe um adeus repentino e ela sempre apática que agora sincera me parecia disse adeus.

Fui-me dali em passo de corrida, olhei para trás uma última vez para a ver sentada ainda no sofá de cálculos pormenorizados dos”sentimentos” e fui-me de vez. Estava perturbado depois disso, primeiro o visual que me mostrava nada de apatia mas “apenas” ódio ao mundo, uma raiva de lhe partir os dentes, a qualquer homem do mundo ali presente, eu inclusive e depois a apatia total, depois o nada, depois o vazio pronto. Ponto.

O dia seguinte foi de acordar ao meio da manhã, caminhar pela cidade e espantar-me com os enormes cruzeiros que por ali passavam cheios dos seus luxos e eu cheio de apatia – ainda – que pouco a pouco, até um dia vou perder a apatia. E isto não é uma ameaça meus amigos.

A expressão pouco a pouco é das expressões mais geniais das que conheço.


Forte Espanhol

Tranquilidade invadida pelos monstros

Procurada pelos turistas

Um toque de Amesterdão









quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Boca del Hueque

Viajar é uma palavra com muitos sinónimos, pelo menos para mim que sou uma pessoa de sinónimos. O principal, claro, e sempre e na minha humilde opinião viajar é TUDO sobre as pessoas, as que vemos, as que se cruzam de uma ou outra maneira, as que se criam laços de amizade, as que se fornicam (fornicar é feio mas parece bem), as que se deixam conhecer e as que não se deixam conhecer, as que me mostram algo, aquelas a quais eu mostro algo, as bonitas e as feias, as vagabundas e as politicamente correctas e as politicamente incorrectas e todas as pessoas são realmente aquilo que me interessa mais numa viagem. Depois das pessoas vem a outra coisa que está directamente ligado às pessoas e que não é mais do que as coisas que me fazem perceber as pessoas. Aqui pode vir um lugar, uma frase, uma conversa, uma palavra apenas, um aspecto físico, uma paisagem, uma sociedade, um meio ambiente, um pensamento, uma mirada, um orgasmo, vários orgasmos, nenhum orgasmo, uma mensagem, um piropo, um livro (estes cabrões que me dão a maior quantidade de sinónimos das pessoas, das viagens), uma revista ou um jornal, uma mensagem electrónica, e por ai adiante no dicionário das palavras.

Este último fim-de-semana teve tudo a ver com pessoas e nada a ver com pessoas, contrariedades que juro por minha honra serem verdadeiras. Uma mais fugida de Caracas para em rumo a oeste eu, um primo meu de seu nome Ricardo, a sua novia, e mais quatro amigos irmos acampar para a Boca del Hueque. Uma praia perdida nesta costa de quase cinco mil quilómetros, deserta e quase virgem não fossem os turistas os filhos da mãe a tirar a virgindade a tudo – eu inclusive. Seis horas e pico de caminho pelo meio da noite e inicio da manhã, muito alcatrão esburacado e trânsito infernal (não estivéssemos nós a viajar pelas estradas da Venezuela), mais hora e meia em caminho digno de um bom quatro vezes quatro para finalmente os olhos se deleitarem com as vistas que tal lugar proporcionava. Um palmeiral de quilómetro e tal (sem precisões) a ficar paralelo a uma praia com o mesmo comprimento e um mar castanho que não de sujo mas sim de suspensão arenosa tal a pequena dimensão do grão de areia de tal areal. O Sol escaldava na pele lá no alto, as nuvens não existiam e um brilhante céu azul fazia as vezes de deuses.

Montamos acampamento por debaixo do palmeiral que nos dava a sombra obrigatória tal o estorricar do Sol. Os cocos por vezes faziam-se notar pelo barulho oco ao cair na areia e o estacionar perto de um tronco estava proibido – seria um desperdiçar de vidas morrer com um coco na cabeça, irónico até tal a quantidade de balas usadas na capital de tal país, não que a morte não tenha muita ironia mas esta teria demasiada.

A partir daqui nada tenho para contar! Fizemos aquilo que um grupo de jovens faz quando vai acampar: Brincadeiras, corridas, futebol, correria, banhos, tendas, comida (faltam sempre os talheres), bebidas, cigarros, conversas filosóficas, conversas quase filosóficas, conversas nada filosóficas e mais uma besteirada de acções que sabe sempre tão bem. À parte disso e particularmente para mim foram quatro dias e três noites de um retiro quase budista (não fosse o caso nada ter a haver com o budismo) no meio do nada e do tudo que é aquele paraíso. O convívio estava exclusivamente limitado às sete pessoas que por ali estavam e eu para vos ser sincero não estava muito para convívios, nada que um pouco de rum e um Tinto Argentino não ajudasse. Nos intervalos do rum e do Tinto viajei muito! Neste caso viajei pelo entendimento sempre tentado e nada conseguido das pessoas. Preguei uma cadeira a dois metros da quebra das ondas, enchi um copo com o cocktail Cuba Libre (dá-me vontade de rir da pessoa que inventou este cocktail para não falar no seu muito particular e nada verdadeiro nome), sentei-me, prendi um cigarro e abri um livro, e depois outro que foram duas as companhias dos quatro dias. Absorvi tudo que me diziam naquelas palavras para acabar desiludido com os dois manuscritos. O Kiss me once, kiss me twice era demasiado romance típico de contos de fadas para mim, o que me fez apenas ver e pensar no lado oposto – fenomenal! O outro era sobre as nossas incansáveis buscas do entendimento da humanidade actual e as suas diferenças, de nome Guns, Steel and Germs, acabou por me dar muita informação que embora interessante e muito relevante não era o tipo de leitura para a minha mente actual. No entanto deu que pensar e dá que pensar e dá-me a certeza que no fundo são tudo buscas inapropriadas e desnecessárias – nada que não seja susceptível de se mudar em pensamentos.

Pelo meio comemorei os meus vinte e três anos de existência, se os vinte e um foram de “oficialmente adulto” e os vinte e dois de capicua, os vinte e três não faço a mínima ideia do que seja. A idade é já obrigatória de responsabilidades na maior parte das vezes. No meu caso a responsabilidade é praticamente nula, mas para vos ser sincero ainda estou para perceber o significado da palavra responsabilidade na sua verdadeira essência. O significado na nossa sociedade para um jovem como eu seria possivelmente de um emprego, uma namorada a pensar no casamento e uma perspectiva de carreira. Na sua “verdadeira essência”, a palavra responsabilidade dá-me outros pensamentos que não estes, pensamentos ainda nada explícitos e por isso nada descritos – ainda. Olho para mim e vejo que realmente a idade avança, vinte e três anos são alguma coisa! Eu nunca no meu perfeito juízo entraria agora por filosofias sobre a idade já que: o dia de aniversário tem que ser comemorado como tal e sem filosofias; a minha idade não significa absolutamente nada em termos quantitativos para algum tipo de filosofia e porque a minha filosofia é das pessoas e não da minha pessoa – ainda.

Acabando com pouco interesse assim como comecei este horrível texto sem sentido, digo apenas que fui acampar o último fim-de-semana para mais uma das muitas paradisíacas praias deste paradisíaco país! Conversei e desfrutei, li, caminhei, tomei banhos de mar, de sol e de rio, vi a natureza no seu maior esplendor, sorri e ri, pensei e deixei de pensar e no final do dia, corri nu pela praia fora para todo nu tomar um bom banho de mar. Foi um aniversário diferente sem duvida alguma, mas não deixei de o desfrutar de uma particular e bonita maneira. No final de contas um fim-de-semana para me provar novamente que a vida continua a ser um milagre (claro que eu sou suspeito já que para mim a vida sempre foi um milagre)!


















Puerto Maya - Capitulo 2

Acho que não me canso de falar de Puerto Maya, ou antes, acho que não me caso de pensar em Puerto Maya, de estar em Puerto Maya. Depois de não ter regressado quando planeado e na altura das sagradas festas desta pequena aldeia, eis que finalmente o meu tio Gil dá o abalo e uma semana depois das mesmas lá voltei eu a tal aldeia na companhia deste mesmo tio, um amigo do mesmo e um outro amigo do amigo do mesmo. Todos portugueses: dois emigrantes e dois não emigrantes, dois do norte português e dois da ilha da Madeira, tudo misturado dá demasiada confusão para explicar. Não interessa de facto explicar – todos portugueses!

Cada vez que lá volto, sou constantemente bombardeado com perguntas para que eu explique o mundo àquelas gentes. Cada vez que lá volto penso se é o mundo que se deve explicar a Puerto Maya ou se será Puerto Maya que se deve explicar ao mundo. Todo o mundo em geral perde de facto importância tal a sua demência quando o comparo a esta sobriedade e simplicidade que é esta vila, mesmo sendo os seus habitantes quase alcoólicos. Puerto Maya para mim é cada vez mais a explicação do sentido da vida – em teorias filosóficas claro. Penso e repenso no que será de facto o objectivo de uma vida para um Europeu como sou de gema e coração, penso no objectivo de vida de qualquer pessoa daquele lugar, penso no errado e no certo e duvido de quem estará mais certo ou mais errado, ou apenas menos errado.

A vila é pequena, tem cerca de quinhentos habitantes (começam a ser demasiados) e umas duzentas casas. A população vive única e exclusivamente de uma coisa – o peixe que pesca do mar. Os homens claro que as mulheres vivem com a maternidade como profissão e a conversa fiada como hobby. Os homens saem ou de noite cerrada para o mar alto ou manhã cedo para o mesmo, a buscar o sustento das muitas vidas que constituem a sua família. Pescam e vendem aquilo que pescam. Voltam ao mar apenas quando o dinheiro obtido com a sua ultima pescaria se acaba, o objectivo é apenas uma televisão nova, meia dúzia de sacos de arroz ou um naco de carne, nem uma casa mais confortável serve de desculpa, não é preciso na verdade já que a canalha passa o tempo na rua ou na praia ou na mata ou no rio ou onde quer que exista uma brincadeira nova. As mulheres passam o dia sentadas no largo mais próximo a conversar com as vizinhas mais próximas. Olham-me de sorrisos na cara quando passo por elas e um piropo sai sempre das suas bocas de grandes e escuros lábios a ver se conseguem um qualquer romance para dar mais temas à sua conversa diária.

A maior parte é de largas proporções, gordas em demasia nas suas cadeiras de plástico a comer um ou outro petisco e a beber refresco e cerveja e sumo e o que quer que haja à mão.

- Hola guapo, nos regala un refresco!

Lá de vez em quando uma mãe lá coloca uma mama à disposição para dar de mamar à última cria da ninhada. O resto da mesma anda por ai, ela não sabe, assim como não sabe a mãe que está ao lado. Passam em bandos de 8 – 10 putos, em correria e aos chutos a uma garrafa de plástico. Param quando me vêm e arrancam em desenfreada correria para me bombardearem com perguntas, que eu não lhes entendo metade do que dizem, não pelo meu castelhano arranhado mas pelo seu castelhano improvisado. Sorrio

- Habla dispacio shamo!

E eles que nunca falam devagar, nem com espaço entre palavras, nem em castelhano, nem em algo que eu realmente entenda.

Os homens todos na praia – ou a carregar o peixe do seu barco ou a ver o peixe do barco dos outros, em competição diária dita em quilogramas de cardumes ou em libras de um singular. O Shiva e ancião da aldeia sentado numa mais cadeira de plástico com o charuto no canto da boca. A barba branca de cor e comprida de desleixo pinta-lhe a cara negra. Sorri com todos os seus dentes gastos para mim e começa um falar rouco naquele castelhano que tanto me esforço para entender, sem esforço sorrio e ele satisfeito com o meu sorriso volta a sorrir e vira-se de novo para o mar. O mar, esse enche-se de pontos negros, putos às dezenas correm para a água, atiram-se e por ai se deixam ficar, riem-se aos berros, gritam de tudo, esmurram-se, sangram, levantam-se, voltam a correr para o mar e tudo volta à normalidade. De loucos é como descrevo os momentos entre eles, não falam entre si senão em altos berros, não discutem sem ser com as tantas palavras de ofensa que essas sim percebo. As emoções parecem estar sempre no máximo e os ânimos sempre exaltados. No entanto são tudo momentos fugazes, tudo passa e o silêncio volta aos berros longínquos de outra discussão.

Por volta do meio-dia é uma correria de canalha pela rua principal, uns a sair da escola e outros a entrar. Um professor que não é mais do que um visionário que finalmente fatigado do mundo se refugiou em tal lugar ensina o pouco que os miúdos aprendem. Que é senão as letras do abecedário e o dois vezes dois da tabuada. O necessário para contar os quilos de peixe da pescaria e apontar no caderno “das contas”, o necessário para se viver ali e arrisco-me a dizer, em perfeita e simples felicidade. Desculpem-me o risco, desculpem-me tudo mas não me desculpem as dúvidas de Puerto Maya, que as duvidas são a coisa mais constante nesta minha ida.

Um transexual no meio de um largo grupo de gente pela hora do fim de jantar na escadaria de uma de outras normais e coloridas casas e o mundo que me cai em cima. Retirado da aldeia por mais de um ano para a tal operação que lhe dá o estatuto de mulher e de volta com um par de mamas digno de qualquer senhora, a cara a denunciar algo e o corpo a contrariar. Assobia-me e

- Hola mi amor! Me regala un refresco!

e eu que regalo, e eu que me pergunto como está um transexual numa aldeia pequena como esta. E eu que me pergunto que o transexual não está apenas numa aldeia como esta, um transexual está numa aldeia como esta a conversar com um grande número de gente as suas risadas. E eu que me pergunto que esta agora bela mulher está no seu meio, sem descriminação, sem homofobismo, sem nada senão a amizade das suas amigas e a família que a sua original. E eu que me pergunto quem são os correctos que não é de certo a nossa dita civilização “civilizada”, que não é por certo o nosso Portugal que amo, com a nossa mente tão pequenina. Que eu nem sequer imagino um transexual a viver pacificamente em Cesar, ou em São João da Madeira, ou no Porto, ou em Lisboa senão escondido nos meios que são poucos os que compreendem e aceitam, que eu penso o quão pequenino somos por vezes neste nosso tão grande mundo. E esta pequeníssima aldeia, escondida nas montanhas, perdida de tudo e quase todos a mostrar-me tudo, o humanismo, a simplicidade, a amizade, a família, a vida, a paz e o sossego, e tudo o que prezo nesta minha curta vida a estar presente aqui. Sem complicações, sem exageros, sem dúvidas, sem questões, sem nada senão uma simples e normal vida.

É Simples e conciso: uma cerveja, um atum ou tubarão, os filhos, a família, a festa ao sábado à noite, os putos pela aldeia fora, o rio acima e o mar adentro, as palmeiras e os cocos, a música sempre presente, a taberna, a verdadeira igualdade entre todos, o casebre que não serve mais do que para abrigar da chuva que por vezes desaba, a conversa e o convívio entre todos, as discussões e ponto. Temos uma pequena sociedade a qual me dá tantas dúvidas. Digam-me lá vocês se realmente é o mundo que se tem que explicar a Puerto Maya ou Puerto Maya que se tem que explicar ao mundo.

A praia

O "Hotel"




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